QUEM TEM A VIOLA...

Em um daqueles dias em que as 24 horas parecem conversa pra boi dormir, de tão absurdo que esse número enorme parece.
Em um daqueles dias em que tudo demanda foco, mira, concentração.
Em um daqueles dias em que há tanto, muito, tudo a se fazer.
Justo num dia desses, me vi focando longe, mirei o canto do meu quarto e quando me dei conta lá estava ele no meu colo.
Vitório, companheiro desde os meus idos 15 anos. Hoje, beirada meio roída, marcas na madeira já manchada (pelos tombos e "carinhos" dos irmãos que amam também estar com ele), porém, mais exato, mais límpido, mais macio...acho que é a idade, aconteceu também comigo.
Deliciosa companhia com a qual já enfrentei algumas aventuras, como uma vez em um país estranho onde mal tinha lugar pra dormir. Na noite ao relento, frio, beira do fogo, gente bacana e meu amigão de cordas. Bons momentos.
Em dias como esse me pego pensando nas boas coisas, e fica difícil de focalizar no que deve ser feito. Nunca vi sentir mais prazer em tocar violão do que quando tenho pressa, quando tenho muito a fazer. Notas límpidas, idéias, harmonias...quase nada de talento, mas há uma criatividade que flui incontrolavelmente, o que me confirma a teoria de que rendo bem mais sob pressão do que em CNTP. Divertido, mas assustador.
Bom demais. Passei o resto do dia meio que correndo, sim. Porém, fiquei cantarolando uma canção deliciosa do Boca Livre que ouvi em um CD que dei de presente ao meu pai no ano passado, mas que acabou virando meu. Transcrevo:
Quem tem a viola pra se acompanhar Não vive sozinho, nem pode penar Tem som de rio numa corda de metal Tem no marco o acorde final Quem tem a viola pra se acompanhar Não vive sozinho nem pode penar Tem tom de roupa quando seca no varal Luz do sol quando cai no cristal Faz o luar brilhar E o coração vazio Voa vadio Feito uma pipa no ar
É, meu Vitório é um companheirão. E podem vir dias corridos, de barulho, de pilhas de papéis, de gente mau-humorada, de telefones tocando ao mesmo tempo, de prazos, de vontade frustrada de dormir muito, de histórias sem final, de motoristas grosseiros que não deveriam nem guiar velocípede, de preocupações recorrentes, de provas chatas, de sapato incômodo, de cançõezinhas ridículas que não saem da cabeça, de professores que querem ensinar justiça sendo injustos, de sinal fechado, de irmão rabugento, de dor no pescoço, de desgosto de computador, de cinza e verde-oliva, de música de central telefônica, de falta de perspectivas...continuarei cantarolando como Vinícius e Toquinho:
Mas não tem nada não... Tenho meu violão.
Escrito por Lu Leite às 08:24
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