A JANELA
Hoje eu vi uma moça parada no corredor, olhando uma janela. Ela mirava aquela paisagem com tal concentração que me fez parar por alguns segundos. O que olhava? Não tive coragem de voltar e perguntar, sequer me atrevi a dar alguns passos atrás para conferir que horizonte a fazia meditar tanto.
Meu medo era que qualquer movimento, qualquer susto, qualquer brisa mais forte pudesse tira-la dali...Tinha a impressão de que ela estava de frente a um abismo silenciosíssimo, como que se equilibrando para não cair...e se eu a derrubasse? Não!
Parecia muito cansada, rosto cansado, cabelos cansados...rosto longo e cabelos longos, longo silêncio...deveria ser mãe, quiçá estava pensando nos filhos. Nos anos por vir ou nos que se passaram no vazio. Será que sentia saudades? Será que perdeu alguém na vida? Fiquei tentada a perguntar. Porém, fitando aquela moça à janela, tive a impressão de ver a mim mesma, só que sem oportunidades e sem horizontes, sem chances nem sorte, sem esperança...sem nada. Tive medo. Vi-me também diante de um abismo silencioso, e parecia poder ouvir os grãos de areia que escorriam de uma ampulheta longínqua...escorria como os segundos que eu não posso segurar agora. E aquela moça? Teria conseguido?
E os olhos...apertados como alguém que tenta enxergar longe em dia de sol, testa franzida. Rugas, rugas...não as de sorriso no canto da boca e ao redor dos olhos, mas aquelas outras que não alegram em nada quem as porta. Já não me importava que ela me visse. Veio um certo atrevimento mesclado à curiosidade que quase não controlava...como queria saber o que olhava!
Então, em alguns instantes que sequer percebi passar, vi a moça chorar. Fez todos os gestos de quem chora, mas não se moveu. Vi que chorava, mas nenhuma lágrima caía. Certamente o tempo a teria ensinado a verter para dentro as mágoas e desafetos. Não saíam as lágrimas, porém, todas as marcas do rosto, mãos e cabelos estampavam que em algum lugar estava represado um oceano sabe-se lá de que tamanho.
Continuei a olhar...já não podia fazer outra coisa. Sem saber o que dizer e envergonhada novamente por estar espiando um pranto seco, fiquei paralisada, como se fica quando não se tem resposta a uma pergunta inesperada. Parada. Olhei com tristeza, como que me despedindo. E enquanto uma brisa fria entrava por aquela fresta, minha alma recebeu um último sopro de sensibilidade. E compreendi. Aquela moça que olhava concentradíssima pela janela, como que procurando por algo, estava olhando com todos os seus sentidos para a imensidão que trazia dentro de si.
Não me senti mais digna de olhar. Virei-me e tornei a ser eu. Insensível e incapaz de fechar as janelas e olhar para dentro.
Ah, é velho mas é o que tenho.
Falta de espaço constante.
Falta de tempo cortante.
Inspiração...minguante.
Mais uma prova de que "tenho fases, como a lua". 
Escrito por Lu Leite às 11:55
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