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PARA QUEM NÃO TEM O QUE ESCREVER...SEMPRE É BOM CITAR QUEM ENTENDE DO LETRADO!

Cartão de Natal

ois que reinaugurando essa criança
pensam os homens
reinaugurar a sua vida
e começar novo caderno,
fresco como o pão do dia;
pois que nestes dias a aventura
parece em ponto de vôo, e parece
que vão enfim poder
explodir suas sementes:

que desta vez não perca esse caderno
sua atração núbil para o dente;
que o entusiasmo conserve vivas
suas molas,
e possa enfim o ferro
comer a ferrugem
o sim comer o não.

João Cabral de Melo Neto



 Escrito por Lu Leite às 01:54
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O MENINO NA CALÇADA

  O menino rodava a bola nos pés e ela ia quicando na calçada. Quicava também o menino em cada buraquinho no cimento. Pé no chão.

   A bola dava sinais de bons momentos passados por aí. Superfície toda ferida pelos chutes e quiques nas ruas e calçadas, assim como uma cor inconfundível de sujeira que comprovava que seu dono havia sido feliz - e muitas vezes.

   A bola tinha apogeu e queda, e calava no chão. E o menino continuava seu caminho naquela manhã de terça-feira, quicando sua bola e experimentando o êxtase do domínio, a inconfundível alegria do poder: aquela calçada era seu território.

   Sendo terça-feira, passou por um homem que vinha orgulhoso com sua pasta e sua barriga. A gravata na barriga lembrava as emendas da napa da bola, como um contorno. E lá vinha o homem orgulhoso! A bola cruzou a barriga quicando, mas o homem não quicou nem olhou. E o menino riu.

   Passaram, menino e bola, por um bar aberto. Mesas com gente em tamanha terça-feira, mas alguns tinham cara de estar ali desde domingo. O menino passou devagar, como que tentando entender os porquês da vida adulta. Em um lapso de segundo conformou-se com sua sabedoria pueril e tornou a acelerar rolando a bola e rolando a vida. Era já bastante aquilo que sabia.

   O cachorro parou na beira da calçada e olhou a bola que rolava na calçada suja e sua. Olhou, olhou...depois viu que a bola tinha um pé, depois viu que o pé era do menino, depois viu que o menino era maior do que a bola, e fugiu.

   A calçada acabava na esquina com o beco, e a bola parou de correr. O menino parou de andar e cuidou de subir a bola de patamar: tirou-a de seu palco e colocou-a nos braços.

   Foram pra casa, bola e menino, os quiques tinham calado fundo na alma e com a bola desgastada o menino do beco era rei naquela sua calçada.



 Escrito por Lu Leite às 01:07
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A JANELA

 

Hoje eu vi uma moça parada no corredor, olhando uma janela. Ela mirava aquela paisagem com tal concentração que me fez parar por alguns segundos. O que olhava? Não tive coragem de voltar e perguntar, sequer me atrevi a dar alguns passos atrás para conferir que horizonte a fazia meditar tanto.

 

Meu medo era que qualquer movimento, qualquer susto, qualquer brisa mais forte pudesse tira-la dali...Tinha a impressão de que ela estava de frente a um abismo silenciosíssimo, como que se equilibrando para não cair...e se eu a derrubasse? Não!

 

Parecia muito cansada, rosto cansado, cabelos cansados...rosto longo e cabelos longos, longo silêncio...deveria ser mãe, quiçá estava pensando nos filhos. Nos anos por vir ou nos que se passaram no vazio. Será que sentia saudades? Será que perdeu alguém na vida? Fiquei tentada a perguntar. Porém, fitando aquela moça à janela, tive a impressão de ver a mim mesma, só que sem oportunidades e sem horizontes, sem chances nem sorte, sem esperança...sem nada. Tive medo. Vi-me também diante de um abismo silencioso, e parecia poder ouvir os grãos de areia que escorriam de uma ampulheta longínqua...escorria como os segundos que eu não posso segurar agora. E aquela moça? Teria conseguido?

 

E os olhos...apertados como alguém que tenta enxergar longe em dia de sol, testa franzida. Rugas, rugas...não as de sorriso no canto da boca e ao redor dos olhos, mas aquelas outras que não alegram em nada quem as porta. Já não me importava que ela me visse. Veio um certo atrevimento mesclado à curiosidade que quase não controlava...como queria saber o que olhava!

 

Então, em alguns instantes que sequer percebi passar, vi a moça chorar. Fez todos os gestos de quem chora, mas não se moveu. Vi que chorava, mas nenhuma lágrima caía. Certamente o tempo a teria ensinado a verter para dentro as mágoas e desafetos. Não saíam as lágrimas, porém, todas as marcas do rosto, mãos e cabelos estampavam que em algum lugar estava represado um oceano sabe-se lá de que tamanho.

 

Continuei a olhar...já não podia fazer outra coisa. Sem saber o que dizer e envergonhada novamente por estar espiando um pranto seco, fiquei paralisada, como se fica quando não se tem resposta a uma pergunta inesperada. Parada. Olhei com tristeza, como que me despedindo. E enquanto uma brisa fria entrava por aquela fresta, minha alma recebeu um último sopro de sensibilidade. E compreendi. Aquela moça que olhava concentradíssima pela janela, como que procurando por algo, estava olhando com todos os seus sentidos para a imensidão que trazia dentro de si.

       Não me senti mais digna de olhar. Virei-me e tornei a ser eu. Insensível e incapaz de fechar as janelas e olhar para dentro.

 

Ah, é velho mas é o que tenho.

Falta de espaço constante.

Falta de tempo cortante.

Inspiração...minguante.

Mais uma prova de que "tenho fases, como a lua".



 Escrito por Lu Leite às 11:55
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