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O que é isto?

...pode ser a gota d'água...
 
Já lhe dei meu corpo, minha alegria
Já estanquei meu sangue quando fervia
Olha a voz que me resta
Olha a veia que salta
Olha a gota que falta pro desfecho da festa
Por favor
Deixe em paz meu coração
Que ele é um pote até aqui de mágoa
E qualquer desatenção, faça não
Pode ser a gota d'água
 
(Chico Buarque)
 
Ele falava, ela retrucava.
Começaram nas pontas dos pés e já estavam acordando os vizinhos.
Há três dias evitando entrar no assunto, cerco armado.
Emoções desde a raiz, pelo caule, à flor da pele...circo armado.
 
Ela pegava no cabelo, fingia princípio de choro, fazia voz aguda quando queria ser mais eloqüente.
Ele franzia a testa, movia os braços com força, como querendo fazer o tempo voltar.
Tinham ensaiado algumas vezes o que iam dizer um ao outro quando uma discussão viesse à baila.
Fatos antes perdoados seriam armas mortais quando o combate fosse corpo-a-corpo.
'Na trincheira emocional vale tudo', alguém já deve haver dito.
 
Bastou um copo sujo fora de lugar e começou o espetáculo.
Um tal de "você sempre...", que o deixou nervoso
Nervoso o quê? Deixou-o louco de raiva!
E a troca de "sempres" e "nuncas" durou vários quartos de hora.
Borbulhas no sangue e no pensamento, agonia de ficar calado.
Tolerância...o que é isso?
Talvez amiga da paciência, outra estranha também.
 
Golpes na mesa de centro da sala.
Derrubadas pelo chão do banheiro as escovas de dente.
"E o chão nem tá limpo!", grita o outro lá da sala.
E a camisa preferida do tal vira pano de chão.
Mais escárnios e trocas de maus augúrios até a 15.ª geração.
 
Ele apelou para as memórias.
Bateu a porta do quarto e jogou os vidros de perfume dela dentro da caixa de fotos.
Ela quis se fazer de forte, enquanto pensava em alguma forma de ferir o assassino de suas lembranças...
E não conseguiu...ficou ali parada diante da execução, e nenhum pensamento lhe pasava pela mente
Nem bom nem ruim, nada.
 
O perfume estava apagando suas lembranças, muitas delas junto ao executor do crime
E ele impassível, queria findar
Ela tentou argumentar, tentou articular palavras para descrever o quanto aquilo dilacerava.
Alma ferida, memória rasgada
A voz embargou
Ai, o silêncio.
 
E ele nem se movia, cheio de razão que estava, deixou o vidro de perfume cair
Ficou com a mão no bolso, meio querendo abraçar, meio querendo aproveitar o silêncio pra dizer logo tudo o que havia ensaiado
Que dúbios os sentimentos!
E a dubiedade anula os movimentos
Há sentimentos que não movem, paralisam.
Congelam.
 
Contemplou-a chorar, de verdade.
E a casca quebrou, abriu.
É, ela ainda estava lá dentro.
Ela, a mesma de 9 anos atrás
Ela, amante das coisas simples, dos carinhos, dos perfumes e das fotos.
 
 

 


 Escrito por Lu Leite às 00:56
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COMO NA ARGENTINA

de Luís Fernando Veríssimo
 
  Não é fácil eliminar um corpo. Uma vida é fácil. Uma vida é cada vez mais fácil. Mas fica o corpo, como lixo. Um dos problemas desta civilização: o que fazer com o próprio lixo.
 
  As carcaças de automóveis, as latas de cerveja, os restos de matanças. O corpo bóia. O corpo vai dar na praia. O corpo brota da terra, como na Argentina.
 
  O que fazer com ele? O corpo é como o lixo atômico. Fica vivo. O corpo é como o plástico. Não desintegra. A carne apodrece e ficam os ossos. Forno crematório não resolve. Ficam os dentes, ficam as cinzas. Fica a memória. Ficam os parentes. Ficam as mães. Como na Argentina.
 
  Seria fácil se o corpo se extinguisse com a vida. A vida é um nada, acaba-se com a vida com um botão ou com uma agulha. Mas fica o corpo, como um estorvo. Os desaparecidos não desaparecem. Sempre há alguém sobrando, sempre há alguém cobrando. As valas comuns não são de confiança. A terra não aceita cadáver sem documento. Os corpos são devolvidos, mais cedo ou mais tarde. A terra é protocolar, não quer ninguém antes do tempo. A terra não quer ser cúmplice. Tapar os corpos com escombros não adianta. Sempre sobra um pé, ou uma mãe. sempre há um bisbilhoteiro, sempre há um inconformado. Sempre há um vivo.
 
  Os corpos brotam do chão, como na Argentina. Corpo não é reciclável. Corpo não é reduzível. Dá para dissolver os corpos em ácido, mas não haveria ácido que chegasse para os assassinados do século. Valas mais fundas, mais escombros, nada adianta. Sempre sobra um dedo acusando.
 
  O corpo é como o nosso passado, não existe mais e não vai embora. Tentaram largar o corpo no meio do mar e não deu certo. O corpo bóia. O corpo volta. Tentaram forjar o protocolo -foi suicídio, estava fugindo- e o corpo desmentia tudo. O corpo incomoda. O corpo faz muito silêncio. Consciência não é biodegradável. Memória não apodrece. Ficam os dentes.
 
  Os meios de acabar com a vida sofisticam-se. Mas ainda não resolveram como acabar com o lixo. Os corpos brotam da terra, como na Argentina. Mais cedo ou mais tarde os mortos brotam da terra.
 

 
Eu cheguei lá no dia seguinte e senti que na memória deles aquele trauma não se apagou.
24 de março de 1976 - 24 de março de 2006 - 30 anos.
30.000 desaparecidos.
 


 Escrito por Lu Leite às 02:15
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