SUPERMERCADO

Eu, na fila do supermercado. Carrinho pela metade. Compras de quem não sustenta uma família. Não tinha feijão, não tinha macarrão...na verdade, a única coisa com "ão" que tinha era um modesto melão que comprei porque ouvi falar que é muito bom pra saúde. É, eu acredito nessas coisas. Enquanto esperava minha vez de pagar, fiquei olhando pras compras do senhor da minha frente: sucos, quilos de mantimentos, coisas coisas coisas, e...uma boneca de quase dois metros de altura! Tá, tá...não tinha dois metros, mas era quase, eu juro...intimidador. O senhor tava levando a boneca para uma filha já meio grande, escutei pela conversa com a caixa. Deduzi pelas compras que ele morava sozinho, e talvez o presente era para alimentar o vínculo com a filha...sei lá. Durante a "bisbilhotação" da compra alheia, me dei conta de que o cara de trás na fila poderia estar fazendo a mesma análise a meu respeito. O meu sim era um carrinho "contraditório", se poderia dizer: cookies light, chocolate, queijo cremoso light, refrigerante, chá de camomila, materiais de higiene pessoal, incluindo pasta de dente com propriedades mágicas, bolo de caxinha...só o essencial (tá, não vou justificar minhas compras, mas não era tão contraditório quanto parecia!). O tipo de trás tava olhando mesmo, até porque não há muito o que se fazer em uma fila de supermercado. Eu fingia que olhava pra longe, olhava as revistas na estante próxima, olhava umas promoções na loja ao lado, lia as tabelas nutricionais do que tava comprando, olhava, olhava, mas aquilo tava me deixando louca, imagina! A um certo momento a esteira do caixa começou a andar, e eu coloquei desesperadamente meus produtos ali, arrumando por categorias (se pudesse teria me jogado em cima para protegê-los de olhares analíticos!). Tinha a esperança que fosse, enfim, sair dali. Mera ilusão. Minhas compras todas devidamente posicionadas, o senhor da frente começa a papear com a caixa que está - como eu - intrigada com a boneca gigante. O senhor se atrapalha com os cartões de crédito, com a identidade, com as palavras, com as próprias pernas...e a caixa, simpática que só, dando o maior ibope pro tal senhor barbado. Eu, na fila, muito chateada com a esteira parada, e morta de timidez pela minha pressa, uma vez que tinha posto todas as minhas bugingangas arquitetonicamente em cima de cada milímetro de esteira, posicionado meu carrinho para passar pelo corredor do caixa, pagar e sair, e esteira parou, o senhor empacou, e a caixa sorria e falava. Esperei. O moço atrás de mim acho que também ficou com vergonha por não ter podido sequer comentar algo como "Chato, né?" ou "Essas coisas vivem acontecendo!".Claro que não ia comentar, oras! Se ele abrisse a boca, eu ia ter a certeza fática de que ele estava olhando o que se passava ali na frente dele, com minhas compras íntimas expostas, minhas pressa contida, e minha frustação estampada. Fui pagar, a caixa falava. Falou do marido, dos filhos, do quanto gostava de dar aos filhos o que ela nunca teve...tudo isso em questão de segundos! Incrível! E eu - que às vezes penso ter na testa um cartaz escrito "conte-me tudo" - fiquei lá com ela, até que minhas compras, já não tão "minhas", fossem encaminhadas, registradas e pagas. - Tchau, obrigada - De nada, volte sempre.
É, volto mesmo, e vai ser parecido, eu sei. Fui embora, não rabugenta, mas rindo...pensando sozinha.
Escrito por Lu Leite às 22:55
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